Várzea. A extinção de uma paixão.
Por Denilson Gambito.
Desde criança pequena que gosto de futebol, apesar de não conseguir nem dominar uma bola. Talvez porque nesse esporte mágico, seja possÃvel acreditar que tudo é possÃvel. Não importa se Davi ou se Golias, ali, dentro das quatro linhas, são, e sempre serão, onze contra onze. Todos simples mortais, gladiadores de carne e osso, gente que existe, que é real. E foi na várzea, que encontrei o futebol na sua mais pura essência, com uma beleza simples e acessÃvel.
Talvez, tão lendária quanto uma história de Homero, a várzea seja uma espécie rara, em extinção, deixando cada vez mais de fazer parte da história do futebol. E foi em Belo Horizonte, no ano de 1998, que conheci essa forma rude de praticar o grande esporte bretão. Futebol feito por gente de verdade, com problemas de verdade, praticado em situações verdadeiramente precárias, e, principalmente, honrando de verdade as cores defendidas.
Trava-se dentro da várzea, uma batalha desleal, onde as condições econômicas são absolutamente desfavoráveis. Falta de tudo um pouco. E o pior, com o chamado “progresso”, os campos de terra batida foram perdendo espaço para empreiteiras e suas estruturas de concreto. Cada dia que passa, a verdadeira essência das competições amadoras vai se esvaindo. É quase impossÃvel manter um time de futebol amador na categoria adulta: é uma tarefa realmente heroica. As equipes são deficitárias, são caras e complicadas de administrar, assim como o ego dos principais jogadores, que mesmo não sendo profissionais, à s vezes pensam como tal.
Por essas e outras, que acredito nas categorias de base, onde os times encontram fôlego na sua árdua caminhada. Com uma busca incansável de patrocÃnio, a várzea procura formas de sobreviver. Confesso que esse desafio me deixa um pouco apreensivo, mas, fazer o quê? Eu gosto.
Ainda não dá pra dizer se a várzea sobreviverá ou não. O fato é que as equipes são montadas e desmontadas rapidamente e os garotos se vão mais rápido ainda, sem o acompanhamento necessário. A falta de recursos para desenvolver um projeto ligado ao futebol me assusta. Faltam parceiros, pessoas que queiram transformar realidades.
Gostaria muito que esses meninos não perdessem suas origens, sua essência – a paixão que de fato os colocou nesse esporte mágico. Porque, mesmo com todas as dificuldades e as precárias condições financeiras, a várzea continua aÃ, escondida nos morros, nas vilas, nas beiras de estradas, mas bem perto de todos. Basta olhar, pra enxergar nos olhos dos meninos, quase sempre desnutridos, o pedido silencioso de ajuda. É importante que a sociedade perceba, o quanto antes, a necessidade de manter os campos por onde já passaram Edsons, Diegos e Ronaldos.
1 Comentário 28 de janeiro de 2010


