Tag: sol

Solo Sagrado

DSC02913Por Denilson Gambito

Um sol latejante, casas amontoadas, um mosaico cinza-chão, laranja-tijolo e madeira.

Cheiro quente, becos abafados, mil portas, janelas, gente. No céu, pipas em vôos rasantes colorem um espaço hora cortado por fios de “gato†elétrico em meio a telhados, parabólicas.

O som contínuo dos ruídos urbanos é de forma brusca interrompido pelos gritos da molecada insana atrás de uma bola feia, oval, surrada, num chão batido liso – terra – a camisa amarela do Cantagalo, time do coração, já quase sem cor.

Bem vindo à favela: mil casas em torno de um terreno retângulo. O caos acontecendo, violência, miséria, fome e, bem ali no centro da comunidade, um solo sagrado abriga o mais brasileiro dos esportes, o campo dos sonhos, o futebol.

Ali casas caem, se erguem, ruas se abrem, pessoas nascem e morrem, mas no campo de terra não se mexe, é uma mesquita voltada para a Meca do futebol – O Maracanã talvez? Não se sabe, mas aqueles moleques franzinos quando ali estão chutando sua bola se transformam em Ronaldos, Zicos, Maradonas, pelezinhos …reis. Pequenos príncipes.

Pessoas que durante a semana são apenas pessoas tornam-se, ao pisar nesse quadrado mágico, famosos, poderosos, artilheiros implacáveis. Disputados pelo seu prestígio, pelo seu carisma, o centro da mesa redonda, a resenha do morro.

A Dona senhora sessentona morena, robusta, cabelos prateados, rainha da simpatia, prepara a feijoada de domingo para o time local. Mora ao lado do bar onde são exibidos os troféus do Cantagalo, glorioso invensível time imortal.

Deixe um comentário 4 de outubro de 2009

Novo Aarão Reis, onde os fracos não tem vez.

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Por Denilson Gambito.

Bairro Novo Aarão Reis, início da tarde, sol de dezembro, o entrelaçado de crianças pra lá e pra cá. É, não é apenas um domingo qualquer. O pandeiro, o batuque, a fumaça do churrasquinho no botequim à beira do alambrado anunciam mais uma partida do Cantagalo.

A comunidade em festa, vai ter futebol.

É carrinho de pipoca, bebê chorando, bêbado enchendo o saco, funk, pagode, tudo junto e misturado, impossível de descrever. Aos poucos, os amigos mais chegados vão se aproximando, o carro velho com o escudo do time no vidro de trás, kombis… Um ônibus 89, com as estrelas de camisas listradas de amarelo e preto batucando nos encostos dos bancos o pagode que a molecada sabe de cor, é a esperança de gol. O mulato simpatia anuncia a chegada do time adversário – o inimigo do dia. A disputa do caneco dourado na beira de campo vai começar.

Do outro lado, o presidente do time local acerta os bastidores, enquanto o velho e abnegado roupeiro confere as torneiras enferrujadas do modesto vestiário. Chega o trio amarelo da arbitragem, franzinos juízes – a segurança, garantia da casa. Auxiliares do time já preparam o saco de pó de carvão, é necessário marcar o campo de terra batida para o espetáculo. Nesse jogo, a tradicional marca de cal será negra, será carvão mesmo, já que sempre sobra aquele pó preto nos sacos usados para churrasco.

Os minutos vão passando, iniciada a preleção, os garotos da comunidade já começam a ocupar seus lugares no alambrado, foguetes a postos, os corneteiros já dão o tom das suas reivindicações, velhos, crianças, senhoras, todos param por um instante, o Maracanã é ali, naquele retângulo irregular, mal feito, de terra, com pequenas ilhas de grama, o rio barrento e sujo à beira do campo é o limite do fim do bairro.

Gandulas, audaciosos malabaristas que buscam perdidas bolas em mata fechada, em rio lamacento, o espetáculo não pode parar. Faltam poucos minutos para o apito inicial. É possivel ver o roupeiro, ex-jogador do time, atravessando o campo com volumosas sacolas de lona de caminhão com as cores do seu glorioso time do coração. Ainda dá tempo de olhar e desejar aquela taça dourada.

O relógio anda, aparecem os guerreiros, uniformizados preparados para a peleja. O sol vai vagarosamente perdendo sua força, deixando que apenas os jogadores brilhem. A torcida insana trepada no alambrado empurra o time, o Juiz observa, confere o cronômetro, olha para os bandeirinhas. O cheiro do churrasco fica mais forte, um cachorro atravessa correndo o campo.

O mundo para – o zunido estridente do apito parece entrar no ouvido de todos, começa a disputa.

Deixe um comentário 3 de setembro de 2009


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