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Cantagalo x Santa Lúcia. Lama na semi-final do Campeonato Infantil de 2006.

Por Denilson Gambito

O sol resolveu se ausentar do jogo naquele dia, sabia que a coisa ia ser feia. O céu, testemunha da partida, se acinzenta, deixando tempo completamente fechado. O temporal, já em seu terceiro dia, anuncia que a partida do Cantagalo vai ser dura.

O povo, acostumado com as amarguras do dia-a-dia, não se deixa intimidar pelo tempo feio. Nada cala o batuque no bar, e a teimosa fumaça do churrasquinho se espalha sobre o campo, escurecendo ainda mais o dia. A torcida comparece – o Santa Lúcia que se cuide, hoje é dia de decisão, e o Cantagalo vai “partir com tudo”. Movimentação de atletas e torcedores – os bastidores da lama. O treinador Marcos Pina chama todos os jogadores para reunião no pequeno e pichado vestiário. Todo cuidado para não acender a luz, a goteira no meio da lâmpada pode fazer a fiação pegar fogo. O treinador Pina, aos berros, chama a atenção de Dogão – atacante principal do Cantagalo – sobre a sua importância nesse jogo. “Hoje você vai decidir”, grita Pina na cara de Dogão, que, estático, ouve sem dizer nada.

Realmente, a psicologia tem suas particularidades na várzea. Catatau (respeitado ex-jogador), auxiliar técnico de renome, chama Dogão, atacante talentoso, para uma conversa ao pé do ouvido. O assunto é a chuva que cai com força no campo, manter-se de pé nessas condições já seria uma vitória. Mas o Cantagalo precisava vencer, então Catatau conta a estratégia do time para ganhar a partida e se classificar para a final contra o Santa Cruz, equipe mais forte do campeonato.

As mãos negras de Catatau, firmes como sucupira, seguram Dogão pelos ombros, enquanto ele explica o que a comissão técnica deseja:

– Dogão, hoje você vai jogar na lama. Isso mesmo, na lama! Esquece tudo que você sabe, vamos ganhar o jogo na lama. A gente é que nem bicho, não gosta da água não, ainda mais barro. Escolhe aquela poça na quina da área adversária e fica lá, não saia por nada. A bola vai te achar lá, no meio do barro, onde ninguém vai te marcar….

Dogão, meio incrédulo, balança a cabeça concordando.
– Sim senhor, professor.

Jogo feio, trinta e cinco do segundo tempo, placar empatado, jogo pesado, duro, violento. O Santa Lúcia prefere o empate pra levar pros pênaltis, já o Cantagalo quer vencer a qualquer custo.
Chutão pra todo lado, o temporal insano, treinadores à beira do ataque de nervos. Denilson Gambito, supervisor técnico do Cantagalo, já está com os cabelos encaracolados completamente lisos, de tanta chuva na cabeça. O treinador Pina, sem voz, apenas olha para o céu, vendo a chuva cair impiedosamente. Catatau, conhecido por nunca entregar os pontos, continua gritando com Dogão: “fica onde eu mandei, fica na lama”. Parecia que ninguém sabia onde um jogo tão feio chegaria. Catatau sabia.

Willian Preto, volante raçudo do Cantagalo, dá um bico pra frente. A bola viaja lamacenta, pesada, atravessa como um tijolo o campo molhado, caindo exatamente onde? Na poça barrenta perto da grande área do Santa Lúcia. Quem está lá? Sujo feito um soldado na guerra, atolado no barro Dogão, o artilheiro, que sem pensar duas vezes e sem marcação alguma, dá um dedão em direção ao gol, sem dó nem piedade. O goleiro tenta em vão pular na bola. É gol, gooooooooool. Dogão, com os dois dedos indicadores apontados para o céu, meio que agradecendo a São Pedro a oportunidade de virar história na comunidade. Ainda dá tempo de olhar para o banco de reservas e dizer para o Catatau – esse é seu, professor.

Festa na favela, o Cantagalo está na final.

1 Comentário 3 de novembro de 2009

Solo Sagrado

DSC02913Por Denilson Gambito

Um sol latejante, casas amontoadas, um mosaico cinza-chão, laranja-tijolo e madeira.

Cheiro quente, becos abafados, mil portas, janelas, gente. No céu, pipas em vôos rasantes colorem um espaço hora cortado por fios de “gato†elétrico em meio a telhados, parabólicas.

O som contínuo dos ruídos urbanos é de forma brusca interrompido pelos gritos da molecada insana atrás de uma bola feia, oval, surrada, num chão batido liso – terra – a camisa amarela do Cantagalo, time do coração, já quase sem cor.

Bem vindo à favela: mil casas em torno de um terreno retângulo. O caos acontecendo, violência, miséria, fome e, bem ali no centro da comunidade, um solo sagrado abriga o mais brasileiro dos esportes, o campo dos sonhos, o futebol.

Ali casas caem, se erguem, ruas se abrem, pessoas nascem e morrem, mas no campo de terra não se mexe, é uma mesquita voltada para a Meca do futebol – O Maracanã talvez? Não se sabe, mas aqueles moleques franzinos quando ali estão chutando sua bola se transformam em Ronaldos, Zicos, Maradonas, pelezinhos …reis. Pequenos príncipes.

Pessoas que durante a semana são apenas pessoas tornam-se, ao pisar nesse quadrado mágico, famosos, poderosos, artilheiros implacáveis. Disputados pelo seu prestígio, pelo seu carisma, o centro da mesa redonda, a resenha do morro.

A Dona senhora sessentona morena, robusta, cabelos prateados, rainha da simpatia, prepara a feijoada de domingo para o time local. Mora ao lado do bar onde são exibidos os troféus do Cantagalo, glorioso invensível time imortal.

Deixe um comentário 4 de outubro de 2009


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